São 7 e 55.
São 8. O sol sumiu e a escuridão - como que uma massa uniforme e densa - chega sem avisar pela rua. Não há estrelas, nem nuvens. Eu vejo o cinza do asfato, o pálido das casas, o verde das árvores e a massa. Eu não pego a minha jaqueta velha e costumeira - ela me confere algum charme adicional, mas hoje o calor vai me deixar menos interessante.
Ontem, eu e minha garota estivemos no parque da cidade, esse parques itnerantes. O sol escaldava às 6:30 e tudo tinha cheiro de pipoca e areia seca. Demos três voltas e paramos pra comer. Trocamos mãos atrás da última barraca, foi engraçado porque tinham uns garotos olhando e eu fiz questão de me projetar pra frente e mostrar bem o que eles ainda não tem direito. E que a minha garota sabe o que faz. Depois fomos no polvo. É, o polvo.
O polvo não para. Não para pra eu descer e nem para pra ela subir. Quis ir sozinho, quase brigamos. Disse que podia vomitar. Fui testar uma vez, pra ver se não terminaria em incidente. Lá de cima, eu continuava pensando que o polvo não para pra eu descer e nem para pra ela subir. Eu via a sua cara amassada de tédio em um oitavo do tempo. Tinham outros sete oitavos em que eu via outras coisas.
O polvo não para pra eu te olhar, nem para pra eu olhar o resto.
São 8 e 15, estou na esquina. A encruzilhada das avenidas iluminadas é curiosamente mais escura do que todo o resto. Cinza, verde e massa. O pálido das casas e dos meus braços pelados. Uma ponta incandescente em mim e uma ponta incandescente em casa. Os carros não param pra eu olhar, os carros não param pra me olhar.
Era a vez dela, ao polvo. De vingança, foi sozinha. Sabiamos que ela preferia a carruagem rosada, lenta, flutuante. Mas ela queria provar do polvo. Não era a dela, ela vomitou. Um dia seria.
O polvo não para pra você acostumar. O polvo não para antes de você vomitar.
São 8 e 20 e tudo continua como antes: massa cinza verde escura. Eu queria a minha jaqueta, pareço uma barata sem casca, em que você vê os segmentos disformes do corpo gosmento a mostra. Se você pisar, não há aquele estalo, e sim aquele barulho típico de esmigalho úmido, que todo mundo conhece. É uma, é duas garotas vindo a frente, e agora tudo parece bem menos massa escura cinza verde barata. Uma é baixa, loira, saia curta. Outra é baixa, loira, saia curta e uns peitos maiores. Não paro de olhar, são 8 e 22, estou as seguindo. Elas não me chamam, me olham e não me chamam.
Depois do polvo, tudo parecia massa verde clara cinzenta, no vestido pastel dela. Fomos pra casa. Dormiu no meu peito. Sabia que era mentira, mas algum hálito verde ainda me vinha a tona constantemente. O polvo não para pra você dormir. O polvo não para para eu dormir.
São 8 e 29, desisti das garotas, andam a passos rápidos, descompassados e tortos. Sou barata sem casca: segmentos e massa densa uniforme e cinzenta. Eu ando as voltas pelas ruas, passo pelo hospital e pela igreja. Isso queima. O polvo roda. Eu preciso foder alguém hoje. São 8 e 47.
Acordamos eu e a garota sob a luz infernal do meio dia. Eu a amo, ela ouve. Ela me ama. Está tudo bem, porque o polvo não para pra que eu olhe pra cara dela. O polvo não para pra ela olhar na minha cara. A verdade do um oitavo é linda, como o carrossel, doce rosa e flutuante.
Era 1 e 26 e agora é 9 e 23, as duas caras de um mesmo dia. Em casa, nos dois momentos. No primeiro, estávamos eu e minha garota na cozinha, jogando conversa fora e preparando um café. Eu estava atrás dela. Caiu café na sua blusa. Eu a lambi. No segundo, estou na roleta russa da vida, atirando pra todos os lados, nunca acertando a bala na minha cabeça e nem a dos outros. É pouco mais do que oito horas de diferença entre o carrossel rosa flutuante verde e a minha situação atual de desespero. São horas de um mesmo dia, mas não de uma mesma vida. 3 e 37 e 9 e 59 já são horas de uma mesma vida. Balas nas cabeças. Quero atirar pra todos os lados, quero caçar todos os animais, quero meu sangue e o dos outros.
6 e 12 e meia noite e 37 são as horas da minha vida. Eu e minha garota voltamos ao parque, para o carrossel. Observei o polvo de longe. O polvo não para pra eu subir, e não para pra loira da terceira cabine descer. Estou no carrossel, às 6 a à meia noite. Doce e rosa. Flutuantes, estamos passeando por entre os cavalos e as éguas, nas carruagens douradas. Estamos passando pelo inferno dentro das próprias calças: Às 6 com a minha garota e à meia noite com a garota dos outros.
São 7 e 56. Eu vou ficar em casa, tiro as calças e a meia.
Estive passando pelo inferno, como motorista, levando uma bagagem enorme comigo. Deixei passageiros na esquina da casa do diabo. Minha garota não sabia do que eu era capaz, a beijei e chutei seu estômago, na esquina da casa pálida cinzenta, em meio a massa. Um pouco do inferno ficou dentro de mim, queima minhas calças e queima meu estômago.
8, 9, 10 horas, tanto faz. Às 11 a epifania, às 11 e 15 a decepção. Às 11 e 45 o orgasmo, à meia noite a decepção. 1, 2, 3 horas, tanto faz. Às 4 o choro, às 4 e 5 o espirro. Às 4 e 10 o catarro.
5, 6 horas, tanto faz. Eu vou sair, pego a jaqueta, está uma neblina fria de ar condicionado lá fora. Às 6 e 15, as mentiras, enquanto ando por entre o chão claro, com pequenas pedrinhas brancas que brilham sob um sol tímido, mas vívido.
Aqui é onde começa a música. Aqui é onde eu começo a tomar forma em meio a massa cega. Como o molde que sai do meio da massa plástica, eu tomo forma, e deixo de ser massa. Retomo a consciência. Eu existo. Isso é às 6 e 18.
Parece mentira, mas tem uma pedra aqui perto de casa, daquelas que dá pra um pequeno abismo. Ela aponta pro leste. Sento na pedra, sinto o calor que o sol infere sobre ela. Minhas calças, pernas e costas ficam quentes.
O som queima a minha cara, eu tenho que tirar a jaqueta. Barata branca, verme com pernas sob o sol.
Se deu conta de tudo que aconteceu, rapaz? Você não se deu conta, eu não me dei conta e você também não. Não estamos nos entendendo mais uma vez.
A luz quente ainda afaga minha pele grossa e escura. Eu não penso mais nada e não sei mais que horas são. Passamos pelo inferno mas podemos tentar mais uma vez.
Ficarei aqui na pedra até não aguentar mais.
Até não aguentar mais.
.
60%, a média para passar?
"you harvest (until you can take no more)"
You Learn About It - The Gathering
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
These Good People
Ele ligou a torneira e acompanhou o fluxo de água, através de uma bolha de ar, pela extensão de toda a mangueira. Ela percorreu um caminho livre até a ponta, por onde todo o líquido jorrava na grama verde. A água atingia uma pequena extensão do gramado, e enchia apenas um pedaço da planta, enquanto o resto sofria sob o sol quente. Eu diria que a força de todo aquele jato apenas num ponto soava bastante agressivo com as folhas delicadas da gramínea. Então, ele pressionou seu dedo sobre o orifício da mangueira, e fez com que a água espalhasse sobre uma parte maior do gramado - Mas ainda assim havia muitas partes descobertas. Era nessa parte em que ele tinha que se mover sobre a coisa toda e fazer com que tudo fosse aguado. Suas pernas estavam um pouco cansadas, e então ele simplesmente resolveu que todas aquelas folhas poderiam esperar. Na verdade, elas talvez não pudessem, mas teriam.
Entrou em sua casa, ela era muito branca, com tons acinzentados - Era o que ele sempre quisera. Descansou um pouco as pernas, mas eu não sei se elas estavam exatamente fatigadas.
Bem próximo da hora de sair de casa, ele ajeitou sua roupa, um terno preto. Olhou-se no espelho algumas vezes pra conferir, e deu uma última olhada. Eu via um homem branco, com um rosto bem cheio. Seu pescoço se alongava bastante a partir do tronco, e seu tímido maxilar tinha um aspecto constantemente cerrado, com ossos saltados nas extremidades. Esse desenho servia como base para uma expressão meio pétrea, de movimentos sensíveis e um olhar meio caído: Penso pra baixo e um pouco amarelado também. Uma pelagem dura e escura recobria todo o rosto, escondendo um pouco a pele levemente machucada. Todo esse conteúdo vinha moldado em feições grosseiras e nada sutis. O cabelo volumoso completava o foco principal de uma imagem cinza-azulada, como era a cor da parede logo atrás. Eu via mais e menos que tudo isso, na verdade.
Ele via um rosto que tinha tarefas a fazer.
Sua direção nas ruas era imoral e imortal: O veículo preto passeava como flamingo entre a corja de pequenas bolinhas brancas com rodas. Elegantemente, o vulto brilhante com o sol do dia desafiava todas as outras aves daquela selva, e emanava do potente metal negro envolto em motor uma sensação que eu descreveria de forma quase empírica: Tinha cheiro e sabor. Como uma fruta muito suculenta ou uma flor de beleza lascívia, eram cores e impressões lânguidas que vibravam de um prazer quase indecente e explosivo, mas muito frágil. Era como se alguém fosse tocar e aquilo tudo se transformaria em clímax pleno. E, logo após, abutre morto no asfalto.
Ele olhou nos espelhos e pra frente e verificou se podia prosseguir. Em um momento mexendo em uma pequena bagunça próxima do câmbio, passou o cruzamento e perdeu o retorno 37. Por isso, ele prosseguiu na avenida e fez um contorno que o faria perder uns 10 ou 15 minutos, num novo caminho. Sentiu-se inchado de uma dor anestésica qualquer e prosseguiu em mais caminhos errados... Errados. "Maldita máquina estúpida", eu pude ouvir.
Ele se perdeu, e você riria ao acompanhar a expressão estupefata do rosto inchado e vermelho. Seguindo uma rua de casas suntuosas, pegou mais um retorno errado que o levou a uma subida muito grande, e que terminou numa rua sem saída. Desceu do carro pra ligar pra alguém, pedir ajuda. Entrou no carro sem ligar, bateu a cabeça umas duas vezes no volante, reclinou o banco e parou por 3 minutos. Já eram uns 40 minutos de atraso. Apenas 3 minutos. Nada mais.
E, em determinado momento, começou uma música no rádio. Uma música que sempre o fez sentir mais do que ele poderia explicar. Uma música que não era só um som, era uma cena abstrata que nunca existira; nem na ficção.
E ele observou no espelho do retrovisor seu rosto clarear, tornar-se pálido e distorcido. Os pedaços de músculos desciam e subiam formando outras expressões, a cada segundo diferentes das formadas anteriormente. Como uma escultura mutante, sua mente e corpo reagiam àquela música como se pudesse transformar todo o metal negro em abutre. Como se todos os segundos tivessem perdido seu sentido por causa de apenas um outro. Eu observava de forma mais contextualizada, e o homem só chorava. Chorava por aquilo que era. E eu chorava junto com ele.
Ele desceu do carro e eu pude observá-lo reclinar-se sobre o, agora, abutre, e acender um cigarro ainda com as mãos tremulantes. Uma garota pálida, de cabelos volumosos e roupas acinzentadas, de aspecto vulgarmente pueril, lhe pediu que acendesse o seu cigarro, um pouco mais comprido e com filtro branco. Percebendo o estado do homem, ela reclinou o pescoço pra trás como quem analisa a situação e disse "Por quê? Você tem um carrão".
A música ainda tocava alto no carro, sons misturados provocando a dança. Ele, num ímpeto absurdo e sem sentido:
- Te dou o que eu tiver na carteira agora, e te garanto que é bastante, se você dançar essa música comigo antes que ela acabe.
A Garota lhe estendeu um braço, e ainda, toda de graça, lhe fez uma referência com o vestido todo solto, como se fosse uma dama de tempos mais remotos. Ele lhe tomou as duas mãos e começou a balançar os corpos pros dois lados, lentamente. A Garota parecia completamente habituada a prática, e a fazia com surpreendente prazer. O Homem ainda chorava e a dança, no fim da rua, no pequeno terreno de chão de terra, se tornava cada vez mais escandalosa: Ambos davam pequenos saltos enquanto se encaravam de braços dados e, logo após, estariam dando voltas e variações dos movimentos. O Homem sorria e chorava.
Ele enxergava os cabelos volumosos da garota saltar sobre seu rosto de sorriso meio aberto. Suas roupas acinzentadas também pulavam descobrindo trechos de pele morena e, por um momento, ela foi um pedaço de sua alma. Enquanto dançavam, ele não sentia que ela precisava ser sua, ele não a queria como um homem quer uma mulher, ele não queria nem que existisse o sexo naquele momento: Ele só precisava que, enquanto a música não acabasse, ele pudesse a guiar por uma dança qualquer. E viver aquilo. Sentir aquilo como nunca voltaria a sentir.
E eu não preciso mais narrar nada: Enfim tomei forma e estava ali com os dois, no centro da dança.
Era noite quando ele saía do trabalho, com o mesmo aspecto cansado de todos os dias. Por sentir-se tenso, achou uma garota que se doava nas ruas. Fez sexo com ela, dentro do carro, num beco escuro. Deu-lhe a quantia combinada e retomou o caminho. Metal negro governando as vias outra vez, brilhante e sórdido como se acostumara a estar.
Olhou no espelho. Viu o mesmo homem de feições duras e frias. Eu tentei ver os olhos vermelhos. Não vi, mas não foi isso que eu escolhi.
Retornei à minha onisciência impotente.
.
5 de 10. Uôu.
"Struggling to prevail"
These Good People - The Gathering
Entrou em sua casa, ela era muito branca, com tons acinzentados - Era o que ele sempre quisera. Descansou um pouco as pernas, mas eu não sei se elas estavam exatamente fatigadas.
Bem próximo da hora de sair de casa, ele ajeitou sua roupa, um terno preto. Olhou-se no espelho algumas vezes pra conferir, e deu uma última olhada. Eu via um homem branco, com um rosto bem cheio. Seu pescoço se alongava bastante a partir do tronco, e seu tímido maxilar tinha um aspecto constantemente cerrado, com ossos saltados nas extremidades. Esse desenho servia como base para uma expressão meio pétrea, de movimentos sensíveis e um olhar meio caído: Penso pra baixo e um pouco amarelado também. Uma pelagem dura e escura recobria todo o rosto, escondendo um pouco a pele levemente machucada. Todo esse conteúdo vinha moldado em feições grosseiras e nada sutis. O cabelo volumoso completava o foco principal de uma imagem cinza-azulada, como era a cor da parede logo atrás. Eu via mais e menos que tudo isso, na verdade.
Ele via um rosto que tinha tarefas a fazer.
Sua direção nas ruas era imoral e imortal: O veículo preto passeava como flamingo entre a corja de pequenas bolinhas brancas com rodas. Elegantemente, o vulto brilhante com o sol do dia desafiava todas as outras aves daquela selva, e emanava do potente metal negro envolto em motor uma sensação que eu descreveria de forma quase empírica: Tinha cheiro e sabor. Como uma fruta muito suculenta ou uma flor de beleza lascívia, eram cores e impressões lânguidas que vibravam de um prazer quase indecente e explosivo, mas muito frágil. Era como se alguém fosse tocar e aquilo tudo se transformaria em clímax pleno. E, logo após, abutre morto no asfalto.
Ele olhou nos espelhos e pra frente e verificou se podia prosseguir. Em um momento mexendo em uma pequena bagunça próxima do câmbio, passou o cruzamento e perdeu o retorno 37. Por isso, ele prosseguiu na avenida e fez um contorno que o faria perder uns 10 ou 15 minutos, num novo caminho. Sentiu-se inchado de uma dor anestésica qualquer e prosseguiu em mais caminhos errados... Errados. "Maldita máquina estúpida", eu pude ouvir.
Ele se perdeu, e você riria ao acompanhar a expressão estupefata do rosto inchado e vermelho. Seguindo uma rua de casas suntuosas, pegou mais um retorno errado que o levou a uma subida muito grande, e que terminou numa rua sem saída. Desceu do carro pra ligar pra alguém, pedir ajuda. Entrou no carro sem ligar, bateu a cabeça umas duas vezes no volante, reclinou o banco e parou por 3 minutos. Já eram uns 40 minutos de atraso. Apenas 3 minutos. Nada mais.
E, em determinado momento, começou uma música no rádio. Uma música que sempre o fez sentir mais do que ele poderia explicar. Uma música que não era só um som, era uma cena abstrata que nunca existira; nem na ficção.
E ele observou no espelho do retrovisor seu rosto clarear, tornar-se pálido e distorcido. Os pedaços de músculos desciam e subiam formando outras expressões, a cada segundo diferentes das formadas anteriormente. Como uma escultura mutante, sua mente e corpo reagiam àquela música como se pudesse transformar todo o metal negro em abutre. Como se todos os segundos tivessem perdido seu sentido por causa de apenas um outro. Eu observava de forma mais contextualizada, e o homem só chorava. Chorava por aquilo que era. E eu chorava junto com ele.
Ele desceu do carro e eu pude observá-lo reclinar-se sobre o, agora, abutre, e acender um cigarro ainda com as mãos tremulantes. Uma garota pálida, de cabelos volumosos e roupas acinzentadas, de aspecto vulgarmente pueril, lhe pediu que acendesse o seu cigarro, um pouco mais comprido e com filtro branco. Percebendo o estado do homem, ela reclinou o pescoço pra trás como quem analisa a situação e disse "Por quê? Você tem um carrão".
A música ainda tocava alto no carro, sons misturados provocando a dança. Ele, num ímpeto absurdo e sem sentido:
- Te dou o que eu tiver na carteira agora, e te garanto que é bastante, se você dançar essa música comigo antes que ela acabe.
A Garota lhe estendeu um braço, e ainda, toda de graça, lhe fez uma referência com o vestido todo solto, como se fosse uma dama de tempos mais remotos. Ele lhe tomou as duas mãos e começou a balançar os corpos pros dois lados, lentamente. A Garota parecia completamente habituada a prática, e a fazia com surpreendente prazer. O Homem ainda chorava e a dança, no fim da rua, no pequeno terreno de chão de terra, se tornava cada vez mais escandalosa: Ambos davam pequenos saltos enquanto se encaravam de braços dados e, logo após, estariam dando voltas e variações dos movimentos. O Homem sorria e chorava.
Ele enxergava os cabelos volumosos da garota saltar sobre seu rosto de sorriso meio aberto. Suas roupas acinzentadas também pulavam descobrindo trechos de pele morena e, por um momento, ela foi um pedaço de sua alma. Enquanto dançavam, ele não sentia que ela precisava ser sua, ele não a queria como um homem quer uma mulher, ele não queria nem que existisse o sexo naquele momento: Ele só precisava que, enquanto a música não acabasse, ele pudesse a guiar por uma dança qualquer. E viver aquilo. Sentir aquilo como nunca voltaria a sentir.
E eu não preciso mais narrar nada: Enfim tomei forma e estava ali com os dois, no centro da dança.
Era noite quando ele saía do trabalho, com o mesmo aspecto cansado de todos os dias. Por sentir-se tenso, achou uma garota que se doava nas ruas. Fez sexo com ela, dentro do carro, num beco escuro. Deu-lhe a quantia combinada e retomou o caminho. Metal negro governando as vias outra vez, brilhante e sórdido como se acostumara a estar.
Olhou no espelho. Viu o mesmo homem de feições duras e frias. Eu tentei ver os olhos vermelhos. Não vi, mas não foi isso que eu escolhi.
Retornei à minha onisciência impotente.
.
5 de 10. Uôu.
"Struggling to prevail"
These Good People - The Gathering
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Golden grounds, ou Os Amores de Cassandra
Despontam os fios de cabelo negro até a margem da cama, uma blusa preta cobre o busto, um jeans e um salto nos pés. Completamente vestida, está deitada sob a luz do teto escuro, os olhos fechados e um cheiro acre de álcool que espalha pelo quarto.
Quando deu a hora certa, ela se levantou para encontrar com o grande amor de sua vida - aquele que a tratava como dama e objeto, como causa e consequência, como tudo e nada. Deitaram-se na cama imunda, à beira da estrada, e transaram com a frieza daquele outubro de tempo estranho. Eles olharam para todos os lados, vestiram-se, saíram, almoçaram e fim - Ato consumado. A Dama largada ao vento, o cavalheiro pegou o ônibus.
Era outra semana quando ela se encontrou com um rapaz tímido. Olhos que se encontram, doces, calmos, serenos. Beijos. Dias incríveis, e ela tinha certeza que a música que ele cantou à ela, olhando-a nos olhos, estaria em si pra sempre, independente do que fosse acontecer a partir daquele momento.
Esses dias ela olhou umas fotos antigas, de um antigo rapaz, de um momento antigo de sua vida. Era àquele homem ao qual ela devia tudo que era: Ela nem sabe o que aprendeu, mas aprendeu tudo com ele. Ela sabia o quão este homem amava, agora, um outro. Era tudo tão turvo. Não se sentia capaz de atingir toda a plenitude, se não com ele.
Sob outras circunstâncias, Cassandra amava ainda outros homens. O Homem que ela ensinava, o homem com o qual ela aprendia, o homem que a penetrava, o homem que ela dominava, o homem que a merecia.
Foi ontem que ela se deitou comigo, e me contou sua história. Nós transamos como um só: Um ato íntimo e tão solitário... Eu sabia que ela me amava, a sua forma, e eu a minha. Quando a fronte dela encarou-me com um copo na mão, eu sabia que conversaríamos por horas. Ela sentou na cama de alvenaria, ajeitou os cabelos para trás, destilou com copo e alma seu ar leviano. Agora eu deixarei que ela vos fale:
"(...) São como sonhos: Eles não são unitários. Eu preciso de gamas de sensações para viver. Não só o carinho que eu tenho agora, mas as todas as músicas que ressoam na minha mente, de desde muito tempo. Eu preciso delas. O homem que me ensina, o homem que me abraça, o homem que me entende. Se eu esqueço, eles voltam (...)"
Somos todos parte de tantos outros, mas o que eu queria sentir eu já senti, e não vou sentir mais. Eu me tornei dependente da segurança descuidada, do sorriso largo e da voz forte: do que me ensina e me ensinou, e depois caminhou pra outros lados. Talvez seja algo como missão.
Levantei me sentindo fria, completamente vestida. Encontrei o outro no lugar combinado e fomos até onde deveríamos ir. Transamos, na falta do que mais. Dormimos e levantamos e conversamos e comemos e fomos. Ele pra lá, e eu pra casa.
Larguei as coisas por aí por cima e fiquei assistindo àquela cena pela fresta da porta do quarto: Garoto e garota sentados juntos no sofá da sala. Ambos sorridentes, cúmplices, decidindo a melhor forma de ajudar nos custos da arquidiocese. Não havia outra forma de reagir ao sorriso no rosto dos dois, se não chorar. Não há forma de transmitir toda a ingenuidade que provinha daqueles olhares entre os dois, da união entre duas pessoas que eu guardaria num aquário, para que não saíssem por aquele portão e encarassem o que há por de trás da cortina. Voltei à sala, cumprimentei os dois novamente, agora abraçando muito forte cada um, e quase pedindo para que nunca mais saíssem por aquele portão...
Chorei, deitada na cama, por mais tantas horas, não sei quantas. Era a dor de ter tudo, e não ter nada, à frente dos que não têm nada, e têm tudo.
Ouvindo música, eu adormeci quando ouvi a voz dizer algo como "golden grounds, so absorving..."
E a música diz o que eu sinto, quando diz que o sol ferve a minha pele: minha cabeça está encostada no vidro da janela do ônibus sacolejante, enquanto a música que a garota me passou toca lenta e pulsando longe de tudo mais aqui.
Foi tudo tão intenso. Transei, aprendi, recitei, cantei, lambi, dormi, observei, possuí, acariciei, sorri, pensei, acordei, resolvi, agitei, fingi, toquei e me despedi.
Debaixo das rodas de um automóvel logo à frente, estava um homem jovem e robusto caído, ensanguentado, morto, na encruzilhada entre caminhos. Não dei atenção, tinham muitos sentimentos em mim, e haveria de ter alguns a ele, por parte de seus parentes.
Cheguei em casa. Esposa. Livros. Vida: desassossego outra vez.
Agitada e pensando nos dois homens da noite anterior (Mas com a certeza de ter sonhado com mais algum... vestido de médico, talvez. O Sonho era confuso), Cassandra acordou agitada, com alguma música ressonante na sua cabeça, que a acompanharia pro resto do dia.
E quantas músicas permanceriam nela para sempre?
--- FIM DO TEXTO ----- [A gente tem que avisar quando ele acaba, porque sempre vários parágrafos e eu posso falar aqui e as pessoas pensarem que ainda é parte do texto. Enfim]
4º texto. de 10.
Meu deus, eu acho que eu vou REALMENTE terminar isso um dia. E olha que faz [ou fazem] 2 meses do último.
"Golden grounds, so absorving... when the heat of the sun boils the skin..."
Golden grounds - The Gathering
Quando deu a hora certa, ela se levantou para encontrar com o grande amor de sua vida - aquele que a tratava como dama e objeto, como causa e consequência, como tudo e nada. Deitaram-se na cama imunda, à beira da estrada, e transaram com a frieza daquele outubro de tempo estranho. Eles olharam para todos os lados, vestiram-se, saíram, almoçaram e fim - Ato consumado. A Dama largada ao vento, o cavalheiro pegou o ônibus.
Era outra semana quando ela se encontrou com um rapaz tímido. Olhos que se encontram, doces, calmos, serenos. Beijos. Dias incríveis, e ela tinha certeza que a música que ele cantou à ela, olhando-a nos olhos, estaria em si pra sempre, independente do que fosse acontecer a partir daquele momento.
Esses dias ela olhou umas fotos antigas, de um antigo rapaz, de um momento antigo de sua vida. Era àquele homem ao qual ela devia tudo que era: Ela nem sabe o que aprendeu, mas aprendeu tudo com ele. Ela sabia o quão este homem amava, agora, um outro. Era tudo tão turvo. Não se sentia capaz de atingir toda a plenitude, se não com ele.
Sob outras circunstâncias, Cassandra amava ainda outros homens. O Homem que ela ensinava, o homem com o qual ela aprendia, o homem que a penetrava, o homem que ela dominava, o homem que a merecia.
Foi ontem que ela se deitou comigo, e me contou sua história. Nós transamos como um só: Um ato íntimo e tão solitário... Eu sabia que ela me amava, a sua forma, e eu a minha. Quando a fronte dela encarou-me com um copo na mão, eu sabia que conversaríamos por horas. Ela sentou na cama de alvenaria, ajeitou os cabelos para trás, destilou com copo e alma seu ar leviano. Agora eu deixarei que ela vos fale:
"(...) São como sonhos: Eles não são unitários. Eu preciso de gamas de sensações para viver. Não só o carinho que eu tenho agora, mas as todas as músicas que ressoam na minha mente, de desde muito tempo. Eu preciso delas. O homem que me ensina, o homem que me abraça, o homem que me entende. Se eu esqueço, eles voltam (...)"
Somos todos parte de tantos outros, mas o que eu queria sentir eu já senti, e não vou sentir mais. Eu me tornei dependente da segurança descuidada, do sorriso largo e da voz forte: do que me ensina e me ensinou, e depois caminhou pra outros lados. Talvez seja algo como missão.
Levantei me sentindo fria, completamente vestida. Encontrei o outro no lugar combinado e fomos até onde deveríamos ir. Transamos, na falta do que mais. Dormimos e levantamos e conversamos e comemos e fomos. Ele pra lá, e eu pra casa.
Larguei as coisas por aí por cima e fiquei assistindo àquela cena pela fresta da porta do quarto: Garoto e garota sentados juntos no sofá da sala. Ambos sorridentes, cúmplices, decidindo a melhor forma de ajudar nos custos da arquidiocese. Não havia outra forma de reagir ao sorriso no rosto dos dois, se não chorar. Não há forma de transmitir toda a ingenuidade que provinha daqueles olhares entre os dois, da união entre duas pessoas que eu guardaria num aquário, para que não saíssem por aquele portão e encarassem o que há por de trás da cortina. Voltei à sala, cumprimentei os dois novamente, agora abraçando muito forte cada um, e quase pedindo para que nunca mais saíssem por aquele portão...
Chorei, deitada na cama, por mais tantas horas, não sei quantas. Era a dor de ter tudo, e não ter nada, à frente dos que não têm nada, e têm tudo.
Ouvindo música, eu adormeci quando ouvi a voz dizer algo como "golden grounds, so absorving..."
E a música diz o que eu sinto, quando diz que o sol ferve a minha pele: minha cabeça está encostada no vidro da janela do ônibus sacolejante, enquanto a música que a garota me passou toca lenta e pulsando longe de tudo mais aqui.
Foi tudo tão intenso. Transei, aprendi, recitei, cantei, lambi, dormi, observei, possuí, acariciei, sorri, pensei, acordei, resolvi, agitei, fingi, toquei e me despedi.
Debaixo das rodas de um automóvel logo à frente, estava um homem jovem e robusto caído, ensanguentado, morto, na encruzilhada entre caminhos. Não dei atenção, tinham muitos sentimentos em mim, e haveria de ter alguns a ele, por parte de seus parentes.
Cheguei em casa. Esposa. Livros. Vida: desassossego outra vez.
Agitada e pensando nos dois homens da noite anterior (Mas com a certeza de ter sonhado com mais algum... vestido de médico, talvez. O Sonho era confuso), Cassandra acordou agitada, com alguma música ressonante na sua cabeça, que a acompanharia pro resto do dia.
E quantas músicas permanceriam nela para sempre?
--- FIM DO TEXTO ----- [A gente tem que avisar quando ele acaba, porque sempre vários parágrafos e eu posso falar aqui e as pessoas pensarem que ainda é parte do texto. Enfim]
4º texto. de 10.
Meu deus, eu acho que eu vou REALMENTE terminar isso um dia. E olha que faz [ou fazem] 2 meses do último.
"Golden grounds, so absorving... when the heat of the sun boils the skin..."
Golden grounds - The Gathering
quarta-feira, 30 de julho de 2008
A Life All Mine
Meus olhos estão encarando a planta logo a frente, mas você poderia ver na minha expressão o quão desfocados estão. Não sei bem a que tipo de sentimento pertence essa vontade de submergir nos lençóis da cama. Não por tristeza, não por cansaço, mas por uma pulsante sensação de abandono. Não foi uma garota bonita, não foram meus pais, tampouco perdi um grande amigo pra morte.
É como chegar ao fim de uma longa jornada. Hoje acordei radiante a frente de um dia promissor: todos os cortes no tecido do meu corpo estavam alinhados, rentes a meu sorriso muito branco. E tudo o que poderia ter sido, realmente foi: todos os cumprimentos por uma glória surreal a meu tempo. Era um dos meus possíveis extremos, e eu atingi o sucesso.
Eu não diria mais nada, a não ser que vim parar nessa cama por um súbito impulso de alagar o travesseiro com todo meu cansaço. Sem tomar um banho, sem comer algo, tombei no colchão coberto por tecidos frios e macios. Cada parte do meu corpo implorava por não sair dali.
Muitas luzes fraquinhas piscavam por entre a janela, iluminando a intervalos curtos e irregulares o quarto azulado, enquanto eu simplesmente não pensava. E agora estou aqui, anotando mentalmente tudo o que eu lhe diria, caso aqui estivesse. Não que eu saiba quem é você - nunca foi essa a minha pretensão - mas, com certeza, você notaria que meus olhos desfocados vêem muito mais que a planta.
Mantive ali, intacta, em um ambiente que, pelo menos pra mim, é tão aconchegante. Por vezes, esqueci de dar a ela a devida atenção, o que fazia de suas raízes fracas, como eu observei antes de ontem. Mas certamente você encantaria-se em ver como são bonitas as folhas: Um verde lívido nas pontas, mesclado com um tom meio azulado no centro. Engraçado que eu sempre gostei de cultivar coisas, mas plantas nunca foram o meu forte. Observar um vaso ornamental com vegetais vivos soa estranho pra mim, agora. Não é possível que, em algum momento da minha vida, eu quisesse mesmo ter uma plantinha simpática dentro do meu quarto. Isso não pertence ao meu mundo, se é que me entende. Você sabe como é... sei que não estou explicando muito bem, mas duvido que você não entenda. É como respirar dentro da água.
Sinto a falta dos seus braços, por assim dizer. Não que um dia tivessem me abraçado, mas eu gostava de os ver, sempre na expectativa de que pudessem me envolver. Soa estúpido, eu sei, mas não posso deixar de comentar que eu gostava de sentir essa dúvida, de esperar essa evolução dos seus sorrisos.
Enfim, espero que você nunca ouça tudo isso, mas eu não deveria estar aqui nessa cama, escutando apenas o zumbido do meu ouvido, por não haver barulho nenhum em casa. Não era o que nós esperávamos, não é? Certamente você teria me dado uns tapinhas, me encorajado a por um casaco bonito e sair pra uma festa.
Agora eu vou comer algo, realmente a fome está apertada. Eu não sei o que será depois, e duvido que você soubesse também. Não tenho nenhuma vontade de sair dessa cama: É gostoso não saber o que sentir. Conclusivamente, estou levantando, com as roupas desabotoadas, pra ir até a cozinha, e afastando você do meu pensamento. Afastando pra você não ouvir a conclusão de tudo, aquela que você saberia, se comigo estivesse, mas preferiria desacreditar: De que tudo que poderia ter sido, na verdade, não foi.
3 de 10. Um número bom.
"No words are spoken
But the world is broken"
A Life All Mine - The Gathering
É como chegar ao fim de uma longa jornada. Hoje acordei radiante a frente de um dia promissor: todos os cortes no tecido do meu corpo estavam alinhados, rentes a meu sorriso muito branco. E tudo o que poderia ter sido, realmente foi: todos os cumprimentos por uma glória surreal a meu tempo. Era um dos meus possíveis extremos, e eu atingi o sucesso.
Eu não diria mais nada, a não ser que vim parar nessa cama por um súbito impulso de alagar o travesseiro com todo meu cansaço. Sem tomar um banho, sem comer algo, tombei no colchão coberto por tecidos frios e macios. Cada parte do meu corpo implorava por não sair dali.
Muitas luzes fraquinhas piscavam por entre a janela, iluminando a intervalos curtos e irregulares o quarto azulado, enquanto eu simplesmente não pensava. E agora estou aqui, anotando mentalmente tudo o que eu lhe diria, caso aqui estivesse. Não que eu saiba quem é você - nunca foi essa a minha pretensão - mas, com certeza, você notaria que meus olhos desfocados vêem muito mais que a planta.
Mantive ali, intacta, em um ambiente que, pelo menos pra mim, é tão aconchegante. Por vezes, esqueci de dar a ela a devida atenção, o que fazia de suas raízes fracas, como eu observei antes de ontem. Mas certamente você encantaria-se em ver como são bonitas as folhas: Um verde lívido nas pontas, mesclado com um tom meio azulado no centro. Engraçado que eu sempre gostei de cultivar coisas, mas plantas nunca foram o meu forte. Observar um vaso ornamental com vegetais vivos soa estranho pra mim, agora. Não é possível que, em algum momento da minha vida, eu quisesse mesmo ter uma plantinha simpática dentro do meu quarto. Isso não pertence ao meu mundo, se é que me entende. Você sabe como é... sei que não estou explicando muito bem, mas duvido que você não entenda. É como respirar dentro da água.
Sinto a falta dos seus braços, por assim dizer. Não que um dia tivessem me abraçado, mas eu gostava de os ver, sempre na expectativa de que pudessem me envolver. Soa estúpido, eu sei, mas não posso deixar de comentar que eu gostava de sentir essa dúvida, de esperar essa evolução dos seus sorrisos.
Enfim, espero que você nunca ouça tudo isso, mas eu não deveria estar aqui nessa cama, escutando apenas o zumbido do meu ouvido, por não haver barulho nenhum em casa. Não era o que nós esperávamos, não é? Certamente você teria me dado uns tapinhas, me encorajado a por um casaco bonito e sair pra uma festa.
Agora eu vou comer algo, realmente a fome está apertada. Eu não sei o que será depois, e duvido que você soubesse também. Não tenho nenhuma vontade de sair dessa cama: É gostoso não saber o que sentir. Conclusivamente, estou levantando, com as roupas desabotoadas, pra ir até a cozinha, e afastando você do meu pensamento. Afastando pra você não ouvir a conclusão de tudo, aquela que você saberia, se comigo estivesse, mas preferiria desacreditar: De que tudo que poderia ter sido, na verdade, não foi.
3 de 10. Um número bom.
"No words are spoken
But the world is broken"
A Life All Mine - The Gathering
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Souvenirs
Essa é a maior das explosões. Ensurdecedora e difícil de ouvir.
Era uma longa estante em vidro cuidadosamente polido, mas a transparência era pouca - O vidro era pardo, quase escuro. Sobre ela, enfileirados estavam centenas de pequenos objetos de cristal, de aço, de plástico... Objetos simbólicos, pequenas esculturas, formas retorcidas representando - ou não - pedaços de realidade.
O homem se aproximava da estante com muito cuidado, era perigoso quebrar um dos objetos ou até mesmo a estante. Os objetos estavam a mostra para qualquer um que fosse mais atento, mas se você reparar bem, ninguém dá atenção a objetos decorativos sobre uma mesa. Apenas os mais observadores vão ter a audácia de desdobrar os significados, e apenas os mais íntimos entrarão em contato com eles. E mesmo assim, geralmente os donos de peças assim tão frágeis (E qual de nós não temos peças frágeis espalhadas por dentro de casa?) ainda terão certos receios em te deixar senti-los assim, mais de perto.
Este homem possuía lá no fundo insólito de um quartinho seus adorados e quase que idolatrados objetos. E todos os dias passava a admirá-los, poli-los. Ao lado, estava uma escrivaninha coberta de objetos incrivelmente desorganizados. Zelo e descuido convivendo entre distâncias minúsculas. Um retrato dos pensamentos, e dos pensamentos que estão dentro dos pensamentos daquele homem.
Ele reservava aquele momento especial todos os dias - e a todos os dias passava a contemplar suas conquistas decorativas: Miniaturas da torre Eiffel, peixes de cristal vindos da Ásia, castanholas douradas, pousadas suavemente sobre uma réplica minúscula de cortina de toureiro. A Cada um dos objetos reservava um tempo especial, fazendo com que sempre passasse mais horas nesse ritual do que o previsto. Na verdade, eram muitas, incontáveis as horas. Era uma jornada.
Debruçado sobre a escrivaninha e acariciando um pequeno elefante indiano, sua mente ponderava sobre a sua vida: Era mediano viver, nem fácil, nem difícil. Sobre esses pensamentos, vinham outros que o culpavam pelos seus crimes, tornando sua existência, naquele momento, um pouco mais miserável. Sua condição instável o levava a mais idéias sinérgicas e recorrentes de estupidez, e sobre as verdades em que ele acreditava, vinham as verdades que eram reais. É impressionante este mecanismo da mente de acreditar em mentiras que contamos.
Observando a aridez da ferrugem da lembrança de Alcatraz, ele tenta se reanimar entre conceitos - que mais pro fundo da mente soam falsos - de sentidos para vida. Cuidando do presente ele mantém uma estabilidade, mas pensa que chegando no futuro, vai detestar saber que perdeu tempo com estabilidade. Ao mesmo tempo, a voz lá no fundo, aquele instinto de sobrevivência, o fala que ele deve manter sim o aparente equilíbrio. É importante pra sua vida não romper com nada, mas ele pensa até onde é importante viver sem explodir. Entre conceitos e mais conceitos, ele sempre vai estar preso a idéia geral de que o presente não vale a pena no futuro, e que o passado vai surgir sempre como um câncer na área do cérebro correspondente ao arrependimento.
Ri ao ver suas bolinhas tailandesas originais, ao mesmo tempo em que percebe o que é rir: É um estado histérico de analgesia. E percebe que muitas pessoas, com certeza, não acham isso, o que o prende naquele maldito conceito - que ele detesta - de que opiniões são variáveis, muito embora ele adore se prender no conceito de que certos padrões são fixos. E que não importa por quais caminhos cerebrais ou teorias malucas ele resolvesse seguir, ele sempre vai rodar e rodar até chegar ao ponto de que sempre soube e não quer acreditar: De que toda essa droga é extremamente complexa, volúvel e incompleta.
E toda essa droga o mata a cada dia. Preso nos quartos e preso em analisar seus objetos, ele vê na vida uma chance de fazer algo a mais por tudo, menos a ele. Vê sua vivência como uma experiência de egoísmo contraditório, ou seja, tudo que faz pra se salvar acaba salvando os outros, que por vez não se salvam porque estão tentando salvar a si próprios, ocupados de mais pra olhar pro lado. No fim, tá todo mundo na mesma merda, afogando em egoísmo e cegueira, pedindo por redenção e ignorando fazer uma escadinha de cheerleaders pra subir até lá em cima. Se bem que a gente sempre pode pensar que a escadinha só salva quem tá lá em cima e... é melhor parar de pensar.
Mais uma vez ele tranca a porta e deixa tudo pro lado de dentro do quartinho: Só leva pra fora papéis (Pensando com as vozes de fundo o que são os papéis) e objetos comuns. Deixou ali os objetos e suas análises, seus orgulhos e conquistas, toda a noção de seu ser, de seu estar e do caralho a 4.
Sai de casa, trabalha, volta, come e dorme. Eu não precisaria contar-lhes mais nada sobre todo o resto do processo do que essas 5 palavras: Sai, trabalha, volta, come e dorme. O que acontece de interessante ficou lá no quartinho...
Eu tô tão feliz de completar o 2º texto da minha série de dez, e estou muito feliz com o resultado.
Se não tem nada de útil que eu possa fazer por mim [Ou que eu esteja disposto], que pelo menos eu contribua refletindo um pouco, ou melhor, com o meu ego, achando que eu escrevo bem!
"You Started The Beginning of the end..."
Souvenirs - The Gathering
Era uma longa estante em vidro cuidadosamente polido, mas a transparência era pouca - O vidro era pardo, quase escuro. Sobre ela, enfileirados estavam centenas de pequenos objetos de cristal, de aço, de plástico... Objetos simbólicos, pequenas esculturas, formas retorcidas representando - ou não - pedaços de realidade.
O homem se aproximava da estante com muito cuidado, era perigoso quebrar um dos objetos ou até mesmo a estante. Os objetos estavam a mostra para qualquer um que fosse mais atento, mas se você reparar bem, ninguém dá atenção a objetos decorativos sobre uma mesa. Apenas os mais observadores vão ter a audácia de desdobrar os significados, e apenas os mais íntimos entrarão em contato com eles. E mesmo assim, geralmente os donos de peças assim tão frágeis (E qual de nós não temos peças frágeis espalhadas por dentro de casa?) ainda terão certos receios em te deixar senti-los assim, mais de perto.
Este homem possuía lá no fundo insólito de um quartinho seus adorados e quase que idolatrados objetos. E todos os dias passava a admirá-los, poli-los. Ao lado, estava uma escrivaninha coberta de objetos incrivelmente desorganizados. Zelo e descuido convivendo entre distâncias minúsculas. Um retrato dos pensamentos, e dos pensamentos que estão dentro dos pensamentos daquele homem.
Ele reservava aquele momento especial todos os dias - e a todos os dias passava a contemplar suas conquistas decorativas: Miniaturas da torre Eiffel, peixes de cristal vindos da Ásia, castanholas douradas, pousadas suavemente sobre uma réplica minúscula de cortina de toureiro. A Cada um dos objetos reservava um tempo especial, fazendo com que sempre passasse mais horas nesse ritual do que o previsto. Na verdade, eram muitas, incontáveis as horas. Era uma jornada.
Debruçado sobre a escrivaninha e acariciando um pequeno elefante indiano, sua mente ponderava sobre a sua vida: Era mediano viver, nem fácil, nem difícil. Sobre esses pensamentos, vinham outros que o culpavam pelos seus crimes, tornando sua existência, naquele momento, um pouco mais miserável. Sua condição instável o levava a mais idéias sinérgicas e recorrentes de estupidez, e sobre as verdades em que ele acreditava, vinham as verdades que eram reais. É impressionante este mecanismo da mente de acreditar em mentiras que contamos.
Observando a aridez da ferrugem da lembrança de Alcatraz, ele tenta se reanimar entre conceitos - que mais pro fundo da mente soam falsos - de sentidos para vida. Cuidando do presente ele mantém uma estabilidade, mas pensa que chegando no futuro, vai detestar saber que perdeu tempo com estabilidade. Ao mesmo tempo, a voz lá no fundo, aquele instinto de sobrevivência, o fala que ele deve manter sim o aparente equilíbrio. É importante pra sua vida não romper com nada, mas ele pensa até onde é importante viver sem explodir. Entre conceitos e mais conceitos, ele sempre vai estar preso a idéia geral de que o presente não vale a pena no futuro, e que o passado vai surgir sempre como um câncer na área do cérebro correspondente ao arrependimento.
Ri ao ver suas bolinhas tailandesas originais, ao mesmo tempo em que percebe o que é rir: É um estado histérico de analgesia. E percebe que muitas pessoas, com certeza, não acham isso, o que o prende naquele maldito conceito - que ele detesta - de que opiniões são variáveis, muito embora ele adore se prender no conceito de que certos padrões são fixos. E que não importa por quais caminhos cerebrais ou teorias malucas ele resolvesse seguir, ele sempre vai rodar e rodar até chegar ao ponto de que sempre soube e não quer acreditar: De que toda essa droga é extremamente complexa, volúvel e incompleta.
E toda essa droga o mata a cada dia. Preso nos quartos e preso em analisar seus objetos, ele vê na vida uma chance de fazer algo a mais por tudo, menos a ele. Vê sua vivência como uma experiência de egoísmo contraditório, ou seja, tudo que faz pra se salvar acaba salvando os outros, que por vez não se salvam porque estão tentando salvar a si próprios, ocupados de mais pra olhar pro lado. No fim, tá todo mundo na mesma merda, afogando em egoísmo e cegueira, pedindo por redenção e ignorando fazer uma escadinha de cheerleaders pra subir até lá em cima. Se bem que a gente sempre pode pensar que a escadinha só salva quem tá lá em cima e... é melhor parar de pensar.
Mais uma vez ele tranca a porta e deixa tudo pro lado de dentro do quartinho: Só leva pra fora papéis (Pensando com as vozes de fundo o que são os papéis) e objetos comuns. Deixou ali os objetos e suas análises, seus orgulhos e conquistas, toda a noção de seu ser, de seu estar e do caralho a 4.
Sai de casa, trabalha, volta, come e dorme. Eu não precisaria contar-lhes mais nada sobre todo o resto do processo do que essas 5 palavras: Sai, trabalha, volta, come e dorme. O que acontece de interessante ficou lá no quartinho...
Eu tô tão feliz de completar o 2º texto da minha série de dez, e estou muito feliz com o resultado.
Se não tem nada de útil que eu possa fazer por mim [Ou que eu esteja disposto], que pelo menos eu contribua refletindo um pouco, ou melhor, com o meu ego, achando que eu escrevo bem!
"You Started The Beginning of the end..."
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